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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A brincar, a brincar...

Aí por 82 ou 83, tive professor na Faculdade que começou a apresentação ridicularizando o nome da disciplina: — Fonética e Morfologia do Português é o mesmo que dizer os Alhos e Bugalhos do Português! E prosseguiu no mesmo tom criticando acerrimamente o programa que tinha acabado de distribuir, com o qual, pelos vistos não se identificava minimamente, culminando na sugestão de que deitássemos para o lixo a bibliografia anexa, que substituiu  por outra, obviamente indisponível e quase inacessível. 
Não, não sabia se existiam tais obras nas bibliotecas da Faculdade, nem o preocupavam as dificuldades de aquisição naquele tempo em que as compras ao estrangeiro estavam fortemente restringidas pela falta de divisas e problemas cambiais, e nós, pobres alunos, mal tínhamos dinheiro para fotocópias.
As aulas eram erráticas, sem planificação, ao sabor dos seus humores. O professor, sempre arrogante, autoritário, sobranceiro com os alunos. Sardónico ao falar dos colegas da área, sempre pronto a destruir as nossas respostas às suas perguntas com mordacidade cruel, num desejo infantil, assim supunha eu, de se ver venerado. Mas havia mais, como vim a descobrir quando veio a “frequência”. Que, inevitavelmente, me correu mal.

— S’tôr, quando é que entrega os testes?
— Não  entrego. E do alto da sua estatura, ampliada pelo estrado, passeou olhar de gozo pelo Pavilhão Velho repleto de alunos incrédulos, a  apreciar o efeito, a saborear o burburinho de protesto.
Depois acrescentou: — O departamento não permite, mas podem passar amanhã pelo meu gabinete para os ver e  saber as notas.
Bom, à hora aprazada lá estávamos, eu e uma colega, autêntico mulherão.
— Você, disse-me, teve onze. Espantei-me. O teste não tinha sinais de ter sido corrigido. Mas ele era o deus único e verdadeiro da linguística e eu estava, tinha consciência disso, mal preparado pela leitura apressada de fotocópias e apontamentos dispersos e desconexos. 
Onze dava para passar, era o que eu queria.
— E você, disse à boazona minha colega, teve sete.
— Sete? O s'tôr está a brincar comigo!
O s'tôr ria. E ela teimava: — O s’tor só pode estar a brincar comigo!
Com pressa para o comboio — trabalhava à noite, a cem quilómetros, estudava de dia — deixei a minha colega a insistir que  o professor só podia estar a brincar com ela. Até porque me sentia a mais, com ele a propor-lhe irem os DOIS tomar um café fora da faculdade enquanto discutiam a nota.
No dia seguinte, encontro-a na faculdade: — Vês, o professor sempre estava a brincar comigo! Tive dezassete!

Bom, eu fiquei feliz com o meu onze.

sábado, 26 de agosto de 2017

É deixar arder

Já por várias vezes aqui escrevi que os bombeiros não apagam fogos florestais, sem com isso pretender diminuir a sua abnegação e altruísmo postos ao serviço da protecção das pessoas e bens em risco.
Pois ontem tive a prova desta minha afirmação: ao passarmos na serra d’Aire avistámos um reacendimento, com fumo e chamas bem visíveis; parámos no quartel de bombeiros mais próximo a avisar. Já sabiam, aquilo já tinha ardido e não tinham acesso… É deixar arder…
Compreendo-os. Há prioridades, riscos a ter em conta, esforços inúteis. Bem precisam de dar descanso aos corpos exaustos, recuperar as forças para poderem continuar a intervir nos incêndios mais graves, os que ameaçam as populações , os quais, se não chover a sério, irão continuar até aos frios de Novembro.

domingo, 20 de agosto de 2017

AMI ou fraude?

Ontem, sábado, por volta do meio-dia, junto da estação do Oriente, do lado do Vasco da Gama, fui interpelado por jovem casal com coletes da AMI. O rapaz, a falar pelos cotovelos, perguntava-me quanto era necessário para dar uma refeição a uma criança necessitada no nosso país.

Não sabia.

__ Quarenta cêntimos!, dizia triunfal. E eu, que habitualmente não sou dado a contribuições nem a solidariedades, puxo da carteira: — Está bem vou contribuir por ser para a AMI, mas não com 40 cêntimos, que é ridículo. E prontificava-me a dar cinco euros.

O moço não aceitou. E falava, falava apressadamente, numa ânsia de despejar a cartilha aprendida: — Se arranjar uma caixa em sua casa, puser diariamente 40 cêntimos, o dinheiro de um café…

— Não há café a 40 cêntimos! E a querer sair dali, incomodado pelo calor, prossigo: — Já disse que contribuo, vamos lá a isso, que estou com pressa!

… Com os quarenta cêntimos guardados todos os dias para alimentar uma criança, ao fim de três meses tem sabe quanto?

Ia responder. Ele não deixou e arredondou: — 40 euros! E com esses 40 euros de 3 em 3 meses pode ajudar a AMI a alimentar as crianças necessitadas, recebendo em contrapartida um seguro de saúde! Tem algum?

— Não.

— E quanto é que paga quando vai ao dentista ou ao Hospital da CUF?

— Muito dinheiro., abreviei. Não conto a minha vida a estranhos.

— Ora veja… 

Mas eu não queria ver. Uma coisa é dar um donativo para a AMI; outra subscrever um seguro de saúde por 120 euros anuais. Ele não desistia. Queria saber onde tratava dos meus dentes. Disse-lhe. E ele telefona a saber se essa clínica tem acordo com o seguro deles. Entretanto, diz à colega para me fazer o inquérito.

Olho-a com mais atenção. O colete branco da AMI tem nódoas. Puxa de uma ficha cheia de quadradinhos — amarrotada, também pouco asseada.

— Qual o seu clube?

De futebol, presumi. —Não tenho.

Queria que cantasse o hino de um clube. Que coisa mais parva! Nem sei nem sou artista de rua.

O moço interrompe-nos: não havia acordo com a minha clínica. Mas pode ir a qualquer outra…

— Não o faço, por razões que não estou para explicar. E não subscrevo seguros de saúde na rua. Se me der os papéis para estudar em casa…

Não podia.E já desinteressado de mim, despedia-se para prosseguir na caça aos otários. Um pouco mais afastados, outros jovens, com idênticos coletes da AMI, abordavam transeuntes.


A AMI anda nisto? 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Anjinhos ou anjolas?

Protestam contra o terrorismo gritando Não temos medo. O problema é que "eles" também não têm medo. Ficamos nisto de fazer peitaça e proclamar valentia, na esperança de que os inimigos se intimidem (o que não acontecerá) ou se deixem vencer pelo cansaço ou partimos para a porrada, no duro, a bater onde lhes dói, onde lhes faz mossa -- nos seus pontos fracos, que os hão-de ter? Sem piedade nem misericórdia? Lembram-se dos Hunos, das pirâmides com centenas de milhar de cabeças, de Átila, o flagelo de Deus?

No Delito de Opinião

Hoje há um texto meu no Delito de Opinião, gentileza de Pedro Correia. Muito obrigado!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Alegretes

Alegretes
A casa, que uma inscrição datava de meados do século XIX, era de pedra tosca, telha romana, pequenas janelas de madeira, os vidros partidos remendados com papelão. 
Na frente, que dava para rua estreita, tinha, de cada lado dos degraus da porta de entrada, alegretes estreitos cobertos por sardinheiras coloridas acima dos quais se elevavam — cabaças! Que eu e o meu primo cobiçávamos, disputávamos: — Aquela é minha! 
Nem sei para que as queríamos. Eram novidade, eram diferentes das demais plantas aldeãs, eram, assim as achava e acho, bonitas na sua elegância feminina de curvas simétricas e perfeitas.
Mas a casa, que tinha pertencido ao nosso bisavô Zabel e passado por herança ao avô Zé Cipriano, estava arrendada. A indivíduo de maus fígados, quezilento — o Maneta, de alcunha e de facto, pois tinha o braço direito amputado pelo pulso. O que nos alimentava as esperanças de em breve nos tornarmos proprietários das apetecidas cabaças era o facto de o nosso avô querer despejar o inquilino:
— Preciso da casa, o meu Emílio quer casar e não  tem onde morar…
Verdade. Quando o tio casou, à pressa como era costume na nossa família, lá se instalou até arranjar melhor.
O Maneta é que não parecia convencido e resistia. Até que o nosso avô nos anunciou: sai no fim do mês, dia 1 vamos lá.
Bem cedo, o meu primo e eu estávamos em casa do nosso avô, cada qual receoso de que o outro, se chegasse sozinho, se apropriasse das melhores cabaças. 
Desilusão: as sardinheiras e cabaceiras jaziam por terra, cortadas rente, cobertas pelas  flores e cabaças, tudo espezinhado maldosamente. 
O meu avô abriu a porta e logo à entrada, grande poia de merda humana enfeitada com flor de sardinheira — tal como em todas nos dois pequenos quartos, na cozinha, até na minúscula despensa interior. E o sobrado encharcado por penicadas de mijo. Fedor insuportável. Olhámos para o avô Cipriano, talvez à espera de ataque de raiva, de ameaças justiceiras.
Mas ele, bom homem e aliviado por se ver libre de tão ruim inquilino, riu às gargalhadas:
— Filhas da puta, muita vontade tiveram para cagar e mijar tanto!
(FOTOS: o avô Cipriano, na única foto que tenho dele, dos seus tempos de militar; no casamento da tia Cesaltina: o meu primo António à esquerda, eu à direita, no meio a minha irmã e o primo Fernando Cipriano; a menina à esquerda era a filha de uma amiga da minha mãe do tempo em que vivemos em Chaqueda, mãe solteira. Nunca mais soube nada dela, a dona Capitolina nem da filha.)

domingo, 6 de agosto de 2017

Milagre ou sugestão?

Entrei na piscina termal de São Pedro do Sul sem fé alguma nos poderes curativos daquelas águas quentes vindas das profundezas, que carregam consigo os odores sulfúreos do Inferno.

E as dores nos joelhos desapareceram! Diluíram-se, evaporaram, não sei. Mas deixaram-me logo ao primeiro tratamento, contrariando a opinião do médico das termas, que me tinha prevenido de que só a partir de onze sessões se começa a notar os benefícios.

Fui como turista, desafiado por amigos para umas mini-férias na região, que incluíam, para preencher os dias, tratamento termal. Voltei sem dores, não digo que convencido, mas muito satisfeito: os joelhos permitiram-me dar por lá umas boas voltas a pé, de tal forma que abusei, mesmo sabendo que não devia; apreciei muito a ginástica na piscina — exercícios igualzinhos ao Chi Kung (Qi Qong) que pratico regularmente há muitos anos —, as massagens e o vapor na coluna; a região, que já tinha visitado no passado, é linda, com muito para descobrir, como os moinhos das fotos abaixo, a gastronomia excelente, pelo que trouxe peso extra a sobrecarregar os joelhos…

Milagre ou sugestão? Tanto se me dá.

sábado, 1 de julho de 2017

Cuidado com os emails!

Este mail  (ver imagem) é uma sofisticada forma de ataque informático (pishing). Aparentemente vem da Amazon e resulta de uma compra de jogos (que, obviamente, não fiz) no Facebook. 

Os piratas esperam que o visado, indignado, clique no link 

 (ver CLICK HERE) para  repor a sua verdade -- e ser, seguramente, infectado.

Desconfiado como sou, não cliquei. Mesmo tendo a certeza de que nada tinha sido comprado, fui ao site da Amazon. fiz o login e procurei por "orders". Nenhuma nos últimos 6 meses.

Não caiam nas armadilhas dos piratas! Nunca cliquem nos links! Lembrem-se sempre do Cântico Negro,  de José Régio: "Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 

Estendendo-me os braços, e seguros 

De que seria bom que eu os ouvisse 

Quando me dizem: "vem por aqui!" 

Eu olho-os com olhos lassos, 

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 

E cruzo os braços, 

E nunca vou por ali... "

Incêndios e roubo de armas: Verão Quente

Um governo substitui outro para fazer melhor e não para se desculpar com as asneiras do anterior.

Pergunto novamente, como perguntei logo após o morticínio de Pedrógão Grande: não há responsabilidades políticas no roubo de armas e munições em Tancos?

Ou atribuímos  as culpas no primeiro caso a um qualquer e anónimo cabo da GNR, no segundo à falha na videovigilância? 

O que me suscita outra questão: com tanto militar a coçar o cu pelas paredes, não há quem faça serviços -- sentinelas, rondas?