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terça-feira, 21 de março de 2017

Recordações


Foi no Inverno de 1983 que soube da existência de um clube de karaté próximo -- em Torres Novas. 
Chovia torrencialmente quando abri a porta e pedi para entrar. Como resposta, apenas um aceno de cabeça de um dos dois cintos castanhos que treinavam juntos e prosseguiram o combate sem me darem a menor importância.

Eu, impaciente, tiritava de frio no pequeno pavilhão gelado, húmido, desconfortável, quase despido; num dos topos uma engelhoca para bater (makiwara, saberia muito depois), no outro uma cortina preta atrás da qual se mudava de roupa e um cartaz, imperativo e lacónico:
CULTIVA O SILÊNCIO
Quando finalmente terminaram o treino, uma boa hora depois da minha chegada, pedi para entrar para o clube. A resposta foi desanimadora: não me podiam dar muita atenção. 
Mesmo assim, insisti. Admitiram-me, na certeza de que desistira depressa. Bem enganados estavam!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Um panfleto

Em 1973, o tipo que no ano anterior me tinha recrutado para CLAC (Comité de Luta Anticolonial) foi preso pela Pide e falou, denunciando um rol de gente das estruturas dirigentes do MRPP e organizações satélites. 
Embora o meu nome não surgisse nos autos, ou pela minha insignificância, ou para ficar como isca para captura de peixe mais graúdo, seguindo as orientações transmitidas pelo meu controleiro, deixei o Instituto Comercial, fui secretamente viver para Leiria, que conhecia dos meus tempos do Curso Comercial, com o projecto de trabalhar como vidreiro na Marinha Grande para me ligar, e ao Movimento, ao meio operário da região.
Mas nas fábricas de vidro, já em crise, apenas admitiam filhos de trabalhadores, que entravam finda a escola primária como aprendizes, não 'velhos' de dezanove anos, e acabei por trabalhar em Leiria, primeiro servente de pedreiro, depois operário de plásticos e viver na Marinha Grande, dependente dos raros autocarros da rodoviária para as deslocações diárias, até que ganhei para uma bicicleta usada — e por pouco não morri, uma noite atirado para a berma por carro desembestado, noutra, de escuridão profunda, em choque com bicicleta sem luz... Outras histórias, para outra ocasião.
Quando saía do turno à meia-noite, tinha de aguardar pelo autocarro das oito, oito horas de espera, mal preenchidas com agitação nocturna na cidade adormecida, e pouco tempo depois lá voltava eu ao café de umas bombas de gasolina, o único que estava aberto durante toda a noite, e por lá ficava a um canto, uma bica, um rissol, a ocupar o tempo a escrever. Panfletos como este, redigidos nas costas de ficha de controle da minha produção, que depois haveria talvez de bater à máquina, imprimir na maquineta, esse copiador artesanal, e pela calada na noite deixar debaixo de automóveis estacionados, uma pedrinha em cima, para que só fossem descobertos muito depois de eu por lá ter passado. Ou poemas – textos empolgados, abundantemente adjectivados, recheados de metáforas e imagens, que há muito destrui.
Sobreviveu estranhamente, miraculosamente, este rascunho, exemplo da propaganda que então se fazia — quem a fazia! — contra a guerra colonial e o regime fascista. Demagógico, recheado de lugares comuns, com erros de ortografia, foi um produto das circunstâncias que vivi. 

sábado, 11 de março de 2017

11 de Março de 1975

11 de Março de 1975
(Reposição)

No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e tinha sido incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. 
Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do combate real nas colónias. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. 
A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. 
As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que o furriel ranger que o perseguia o conseguisse deter, coxa a jorrar sangue às golfadas: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (o tiro estava regulado em altura, não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, e liberto do arame farpado corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. 
E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço. 
Correm boatos: há guerra em Lisboa!  A disciplina prevalece, obedecemos às ordens, formar, marchar, começar novas e extenuantes provas, sempre debaixo de berros, tiros, explosões. À noite, para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado, a custo me despertam para o meu turno de sentinela, nevoeiro de cortar à faca, que guardo eu ali, no pinhal, sem uma única bala no carregador?
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. 
Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as HK21, na esperança ingénua de que o matraquear das metralhadoras afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira de ataque iminente dos marines. 
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que logo reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram alferes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram punho erguido que então morrerão com as botas calçadas a combatê-la – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Onze anos!

O Afonso, o meu primeiro neto, nascido poucas horas antes. Onze anos de convívio e de camaradagem voaram entretanto, repletos de alegrias, um ou outro susto. Parabéns!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Graças a Deus e graças com Deus

Eu era atentador. Judeu.
... os judeus são muito ruins! , sentenciava a minha avó.
-- Porquê? Perguntava, apenas para a arreliar. 
-- Então! Mataram Nosso Senhor!, exclamava, espantada com tanta ignorância.
-- Mas ele também era judeu!
-- Não digas heresias! Sempre ouvi dizer "graças a Deus, e não graças com Deus!"

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Camilo e Júlio Dinis

Os chavões tornam-se paulatinamente na sabedoria popular. Por exemplo, ensinava velho professor de liceu: “Camilo mata-os a todos, Júlio Dinis casa-os a todos”, -- ideia que parece ter-se colado como rótulo a estes autores.
Acontece que estas generalizações, como as demais, são ignorantes e falaciosas. O tal professor talvez não tivesse lido mais de Camilo que Amor de Perdição, em leitura adolescente, daquelas que, não raro, à força de concentrar a atenção nas personagens principais, perdem a riqueza de personagens secundárias, como o grande João da Cruz…  Pois o seu juízo  simplista não sobrevive à leitura de obras como  Onde Está a Felicidade, A Queda dum Anjo, A Brasileira de Prazins, Coração, Cabeça e Estômago…
Júlio Dinis não é mero autor-casamenteiro --  todos se recordam  de personagens suas como João Semana e José das Dornas (As Pupilas do sr. Reitor), o herbanário e Joãozinho das Perdizes (A Morgadinha dos Canaviais) ou Tomé da Póvoa e Clemente (Os Fidalgos da Casa Mourisca).  E desenvolveu com maestria temas perfeitamente actuais como o caciquismo político, a manipulação de massas (A Morgadinha dos Canaviais), a corrupção das autoridades e a viciação da justiça (Os Fidalgos da Casa Mourisca) , obra a que pertence o seguinte excerto:
“Julgou elle [Clemente, o regedor], com sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor, quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus deveres; com funda e amarga dôr de coração viu pois, que tendo arrostado com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurára fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que elle sob o thema de emancipação do povo, dos direitos do homem e da igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as quinas e os angulos agudos ás suas theorias, tomava o partido dos fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor.”
É em Camilo e em Júlio Dinis que encontramos o povo português do séc. XIX , com as suas misérias e grandezas, como realidade social e não como caricatura, igualzinho ao que temos hoje…

JCC

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

44 anos de namoro

Feitos hoje, por coincidência aniversário da minha mulher. Ou talvez não.
Eis o texto do ano passado. Acrescento apenas umas fotos.