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quinta-feira, 27 de abril de 2017

O direito e o avesso

Macron quis visitar uma fábrica de electrodomésticos que vai ser deslocalizada para a Polónia (a Wirlpool) e foi recebido com manifestações violentas, acabando a falar para as televisões no gabinete da administração; Le Pen apareceu de surpresa, e foi recebida com simpatia idêntica à de Jerónimo Sousa quando visita operários em luta: com exuberantes manifestações de carinho, beijos e abraços.

Para aqueles operários, Macron é o símbolo do capitalismo apátrida e da globalização; Le Pen, uma amiga que, como eles, quer o regresso à velha França, com fronteiras onde seria possível manter os direitos laborais penosamente conseguidos em duras lutas, não raro com sangue derramado. (Pourquoi ont-ils tué Jaurès?, perguntava Jacques Brel)

Não perco tempo com chavões, colagem de etiquetas a um e a outra, menos ainda a confundir os meus desejos com a realidade, e a realidade é o que dela fizemos, ou fizeram por nós os sátrapas deste capitalismo selvagem, que não quer fronteiras, nem direitos laborais, nem protecção do ambiente, e por isso mesmo deslocaliza para onde possa, ainda, explorar e destruir impunemente, na esperança de, quando tal não continuar a ser possível, substituir todos os trabalhadores por robôs — que não exigem salário nem fazem greve.

E assim, com os olhos atentos à realidade operária de França, não ficaria surpreendido se, como já aconteceu com Trump, essa realidade que as esquerdas tanto valorizavam, "le peuple", votasse com o coração e não com a razão, até porque a razão parece ser a do mal menor — e interrogo-me se é o mal menor para quem acaba de perder o emprego ou para o grande capital...

terça-feira, 25 de abril de 2017

Todos voltarão ao pó

"... todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó." (Eclesiastes, 3.20)



Hoje, o vento espalhará o seu pó pela serra que escolheu. Ficam as memórias de 45 anos de amizade fraterna, e muitas fotos, a recordar os numerosíssimos momentos que partilhámos.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sob a influência de Fernão Lopes

É antiga a minha admiração por Fernão Lopes, que considero um dos mais talentosos prosadores portugueses de todos os tempos. A interacção com o leitor ("como não queríeis que maldissessem sa vida...") levando-o subtilmente a tomar partido, a capacidade para nos envolver ma acção ("ora esguardai como se fôsseis presente"), a construção de personagens individuais, como Leonor Teles ou Nun' Álvares Pereira, as movimentações do povo de Lisboa ansioso por dar vida e escusar a morte ao Mestre de Avis, a descrição dos padecimentos da cidade durante o cerco, a narração cinematográfica da batalha de Aljubarrota, e do temporal que impediu o Mestre de cobrar Sintra, estão seguramente entre as melhores páginas que alguma vez se escreveram em Português. 
Foi sob a sua influência e de Lazarilho de Tormes, obra-prima da picaresca, que escrevi romance que principia em 1383, aquando  da morte do Conde Andeiro e do Bispo de Lisboa e a populaça amotinado manda nas ruas. Eis um fragmento, em que o protagonista e narrador escapa com dificuldade a linchamento por acusação de pedofilia.

"Acordei estremunhado com gritaria que alvoroçava toda a Travessa do Mata-Porcos, mas antes que assomasse à janela a apurar o motivo da algazarra, entra-me quarto adentro a dona da moradia acompanhada de brava regateira que arrasta consigo pela orelha moço. Olham em volta e não encontrando meu primo, viram-se furiosas para mim, atravessam-se-me à frente, impedindo-me de deitar a mão à espada pendurada em prego na parede ao lado da cama, a regateira empurra-me contra o tabique, deita-me as manápulas à camisa de dormir: onde estava esse canalha, meu primo, que lhe sodomizara o filho?
Olho-a aparvalhado, de nada sabia. Quando tal sucedera?
Não importava, berrava. Não viera a discutir calendários, mas a exigir reparação. Ou acusava-o na justiça e, quanto mais não fosse pela má fama que tinha, não se livraria de ser dependurado como tordo na boiz. Onde estava?
A gritaria atraía mais e mais gente, primeiro mulheres das vielas e da vida, logo seguidas por rapazes vadios que jogavam à bilharda na rua, homens desocupados que por ali arrastam os dias, toda a gente revoltada contra os fidalgos pervertidos que, lá por serem ricos e poderosos, se arrogam o direito de abusar das pobres crianças indefesas, e tantos e tantas entraram porta adentro que o pequeno quarto depressa ficou completamente atravancado, eu espalmado contra a parede, sofrendo safanões, piparotes, injúrias, como se fora o acusado. Tentava protestar a minha inocência, a ignorância do sucedido, mas ninguém queria ouvir as minhas razões: — Cala-te que és igual a ele. Família, farinha do mesmo saco.
A indignação popular crescia: — Ah, isto agora mudou de figura, acabou-se o tempo do “quero, posso e mando”, doravante outro galo cantará, que já não têm quem lhes acuda por parte da aleivosa da rainha!
— Hão-de pagar, senhora comadre, por aquilo que fizeram, por aquilo que nos têm feito, por aquilo que nos fariam se os deixássemos! Este já não escapa e o outro, quando lhe deitarmos a mão…
E das escadas, sem conseguir entrar, o taberneiro judeu grita que comêramos e bebêramos do seu sem pagar. Para não ficar atrás, berra a minha senhoria que lhe devíamos o aluguer do quarto. E a criada gorducha das redondezas acusa-me de dela haver abusado – fora ela a convidar-me, seduzida, ao que então me dissera, pela minha juventude e beleza, naquele tempo em que eu, receando ser sodomita, trabalhava para esclarecer as dúvidas e fatigar o que supunha ser a causa do pecado. E, acrescentava altas vozes, com ela fizera porcarias que são contra a nossa santa religião – - coisas que ela me ensinara, no seu gozo da minha virgindade, dessas a que as mulheres recorrem quando querem contentar os homens e receiam emprenhar -- pelo que se não admirava que também houvesse penetrado o pobre rapazinho no cu, pois a ela o mesmo fizera, isto depois de a desvirginar — e ninguém ria! 
Encostado à parede, via-me já como o pobre Bispo, como o tabelião e o prior de Guimarães que com ele jantavam, mortos sem por quê, lançados da torre da Sé afundo, desnudados, mutilados, a apodrecer em plena rua devorados pelos cães, roídos pelas ratazanas, infestados pelas larvas das varejas, sequer sem enterro cristão. E tomado pela cobardia que, por vezes, acomete até os mais valentes, gritei: – Mas é a meu primo, o senhor fidalgo Álvaro Domingues, que esta senhora acusa. E ele não está. Eu nada tenho a ver com isto, nunca vi o moço mais gordo!
O ruído enfraqueceu. E eu continuei: — Esta mulher acusa a meu primo, não a mim. E não diz quando ocorreram os acontecimentos...
E ela: – Quando? Ora toda a gente sabe. De há meses para cá. Ainda ontem...
Interrompi-a triunfante: – Mentes, má puta velha! Há mais de uma semana que meu primo saiu de Lisboa, a juntar-se à hoste de D. Nuno Álvares Pereira, acrescentei, na esperança de que o patriotismo e a adoração por D. Nuno sossegassem a populaça.
Mas a velha era osso duro de roer: –- Teu primo e tu são unha com carne. Ambos pervertidos e invertidos. Basta ver que dormem juntos, na mesma cama, dizia e apontava com gesto largo a estreita cama que partilhávamos. E virando-se para o filho, rapazote dos seus quinze, dezasseis anos, a penugem do bigode a despontar: – Este também foi? E perante o olhar duro da mãe, o moço aquiesceu com meneio de cabeça. E a velha, triunfante: – Diz alto o que te fizeram estes malandros.
— Tenho vergonha…
— Ou contas ou arrebento contigo antes de arrebentar com o fidalgote!
 — Tomaram-me à força, numa esquina do Poço do Chão, e fui por eles fodudo no cu...
 — Por qual deles?
Pois não o sabia. O olho de trás é furado, acrescentou com esgar malandrino. Talvez até por ambos… 
A fúria da multidão recrudescia. Pouco lhes importava que fosse inocente ou culpado. Afinal todos somos pecadores, assim reza a nossa santa religião, os maiores de todos são os poderosos, a mim não faltariam portanto pecados nem acusadores — se não foi teu primo foste tu, matam-se primeiro, o Senhor apurará depois a inocência ou a culpa e proferirá sentença em conformidade. E uma jurava altas vozes por tudo o que há de mais sagrado que sim, eu era sodomita, vira-me embrulhado com um rapaz, demais a mais judeu, aos beijos na boca e com lambuzadelas como os cães, em tal pouca-vergonha que nos enxotara dali para fora, e cresciam de novo para mim, arrepanhavam-me a camisa, empurraram-me para fora do quarto, lançaram-me escadas abaixo sob socos e pontapés, arrastaram-me pelos pés para o meio da rua enquanto troçavam cruelmente das minhas misérias que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não lograva esconder, cuspiam, escarravam, atiravam terra e pedradas à pobre tripazinha que culpavam de haver penetrado rapazinhos, quando a velha, receando que pusessem cobro a meus breves dias com crueldades terríveis antes de haver em mãos o provento do ardil, se interpôs entre mim e a turba: – Pagas já em dinheiro pela desonra e maldades que fizeste a meu filho, ou preferes pagar com o corpo?
E ouvi na multidão a homem que se mantém de mulheres, certamente indignado por algumas delas me haverem ofertado seus serviços: – Paga primeiro em dinheiro, depois com o corpo
 — Pagas ou não?, berrava a regateira, enquanto me sacudia violentamente pelas abas da camisa de dormir.
— Eu também quero o meu dinheiro da vitelinha e das sardinhas comidas e jamais pagadas!
— E eu, os meus alugueres atrasados! 
— E eu, esganiçava-se a criada gorducha sem que nenhum a não desmentisse, exijo reparação por me haver desonrado!
E todos em uníssono:
— Primeiro a mim, que para isso cá vim e me fodeu o rapaz no cu!
— Não, a mim, que me papou as sardinhas e a vitelinha e me mamou o bom vinho!
— A mim, que fui por ele desvirginada!
E eu, apavorado, que em situações como aquela qualquer valente se acobarda, nem ousei continuar a protestar inocência: — Pago.
Prontamente todas as mãos se estenderam. 
 — Comigo não tenho..., mostrando com gesto a nudez, que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não ocultava.
 — Vamos então buscar a contia ao quarto de Vossa Senhoria. 
Sempre debaixo de repelões, safanões, estaladas, que todos queriam molhar a sopa e fazer justiça por suas mãos além de receber as contias cujas suas diziam ser, empurravam-me para dentro de casa, depois escadas acima até ao cubículo onde dormia. Nem tentei protestar que lá também nada tinha. Antes, num daqueles relances de ousadia em que a juventude é fértil, sacudi as mãos que me empurravam, entrei lampeiro como se tivesse a enxerga forrada a dinheiro, de um pulo alcancei a espada, feri aos mais próximos sem gravidade, apenas cortes que os fizeram recuar de surpresa e de dor, e antes que me acometessem enraivecidos pelo logro e pela reacção, saltei pela janela para os telhados e corri, corri desalmadamente sempre perseguido por rapazolas, entre os dianteiros o que me acusara de o haver fodudo no cu, enquanto em baixo, pelas ruas e vielas me perseguiam os homens, mais atrás corriam as mulheres ululando por vingança, sangue, castigo cruel para pederastas e sodomitas. E eu, com asas nos pés, pulava sobre casas, saltava de ruela em ruela, telhas partiam-se à minha passagem, uma vez ou outra quase cai dentro dos sótãos, até que, junto à Sé, avistando a prelado a subir indolente a rua, saltei para a rua, tomei-lhe as rédeas, apeei-o da montada sob a ameaça da espada e, enquanto o diabo esfrega um olho, piquei a mula rua abaixo, finalmente a salvo dos meus perseguidores, apenas vestido com a camisa de dormir esvoaçante que nem sempre ocultava as partes pudendas, tão magoadas pela crueldade justiceira da populaça. Por onde passava, atraía a atenção e a mofa, uns a chamarem outros: — Mestre, venha cá fora ver isto! 
E gritavam-me, com a falta de respeito a que, melhor ou pior, me ia habituando: 
— Fidalgo, foges de marido sanhudo? 
— Ná, é de puta a quem ficou a dever.
— Taberneiro. Taberneiro, que o fidalgo é ruim caloteiro..."
JCC

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Lisboa, anos setenta

"Lisboa parece adormecida, como se a chuva a tivesse anoitecido prematuramente, há-de chegar o tempo em que nunca dorme, por agora apenas no Bairro Alto, no Cais Sodré, no Intendente, há arremedos de diversão nocturna, se se pode chamar diversão a arruaças protagonizadas por marinheiros bêbedos da esquadra americana que mal fundearam no Tejo logo correram às putas, outros, de gostos diferentes, fingindo que o fazem por brincadeira, seguem travesti mais produzido que corista do Parque Mayer, onde os burgueses assistem pacatos a revista com umas piadas políticas benevolamente toleradas pelo regime, e o travesti vai ser famoso na sua velhice, quando, mais plastificado que estômago de tartaruga marinha, fizer as capas das revistas de cabeleireira, por viela escura dois marines seguem o R, dos Marinheiros alcunhado, poeta famoso e paneleiro lendário, lá mais para a noite estalarão as tais rixas, pancadaria rija entre os bravos chulos lusos, quais cavaleiros andantes a baterem-se por suas damas, e estes americanos amaricados — que dentro de poucas semanas receberão baptismo de fogo no delta do Mekong e em feroz batalha provarão, mais uma vez, que para a guerra não há como os panascas, como é sobejamente sabido desde os duros espartanos, o grande Filipe da Macedónia, o seu filho Alexandre, magno conquistador e maior pederasta, Júlio, César Augusto, o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens, os famosos generais ingleses…

Afora putedo, paneleiros e revista no Parque Mayer, a vida nocturna da cidade resume-se a convívio pacato de oposicionistas nos seus cafés, na cervejaria Trindade, também os estudantes se encontram a pretexto do estudo nos cafés, alguns estão no Apolo 70 a ver A Semente do Diabo, e pouco mais, a capital do Império é serena, vive tranquila entre portas, culpa das televisões compradas a prestações que fixam as gentes nos seus lares, eléctricos e autocarros circulam quase vazios, o metro fechou antes da meia-noite, e a cidade repousa já, das Avenidas Novas até às barracas de Chelas, onde chega de táxi o Zé, acompanha-o outro Zé, mas tratemo-los pelos pseudónimos revolucionários, Pedro e Gustavo, adoptados a partir das iniciais do Comité de Luta Anti Colonial do Instituto Comercial, o "Guerra do Povo"."



Inédito meu, de romance em construção.


terça-feira, 21 de março de 2017

Recordações


Foi no Inverno de 1983 que soube da existência de um clube de karaté próximo -- em Torres Novas. 
Chovia torrencialmente quando abri a porta e pedi para entrar. Como resposta, apenas um aceno de cabeça de um dos dois cintos castanhos que treinavam juntos e prosseguiram o combate sem me darem a menor importância.

Eu, impaciente, tiritava de frio no pequeno pavilhão gelado, húmido, desconfortável, quase despido; num dos topos uma engelhoca para bater (makiwara, saberia muito depois), no outro uma cortina preta atrás da qual se mudava de roupa e um cartaz, imperativo e lacónico:
CULTIVA O SILÊNCIO
Quando finalmente terminaram o treino, uma boa hora depois da minha chegada, pedi para entrar para o clube. A resposta foi desanimadora: não me podiam dar muita atenção. 
Mesmo assim, insisti. Admitiram-me, na certeza de que desistira depressa. Bem enganados estavam!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Um panfleto

Em 1973, o tipo que no ano anterior me tinha recrutado para CLAC (Comité de Luta Anticolonial) foi preso pela Pide e falou, denunciando um rol de gente das estruturas dirigentes do MRPP e organizações satélites. 
Embora o meu nome não surgisse nos autos, ou pela minha insignificância, ou para ficar como isca para captura de peixe mais graúdo, seguindo as orientações transmitidas pelo meu controleiro, deixei o Instituto Comercial, fui secretamente viver para Leiria, que conhecia dos meus tempos do Curso Comercial, com o projecto de trabalhar como vidreiro na Marinha Grande para me ligar, e ao Movimento, ao meio operário da região.
Mas nas fábricas de vidro, já em crise, apenas admitiam filhos de trabalhadores, que entravam finda a escola primária como aprendizes, não 'velhos' de dezanove anos, e acabei por trabalhar em Leiria, primeiro servente de pedreiro, depois operário de plásticos e viver na Marinha Grande, dependente dos raros autocarros da rodoviária para as deslocações diárias, até que ganhei para uma bicicleta usada — e por pouco não morri, uma noite atirado para a berma por carro desembestado, noutra, de escuridão profunda, em choque com bicicleta sem luz... Outras histórias, para outra ocasião.
Quando saía do turno à meia-noite, tinha de aguardar pelo autocarro das oito, oito horas de espera, mal preenchidas com agitação nocturna na cidade adormecida, e pouco tempo depois lá voltava eu ao café de umas bombas de gasolina, o único que estava aberto durante toda a noite, e por lá ficava a um canto, uma bica, um rissol, a ocupar o tempo a escrever. Panfletos como este, redigidos nas costas de ficha de controle da minha produção, que depois haveria talvez de bater à máquina, imprimir na maquineta, esse copiador artesanal, e pela calada na noite deixar debaixo de automóveis estacionados, uma pedrinha em cima, para que só fossem descobertos muito depois de eu por lá ter passado. Ou poemas – textos empolgados, abundantemente adjectivados, recheados de metáforas e imagens, que há muito destrui.
Sobreviveu estranhamente, miraculosamente, este rascunho, exemplo da propaganda que então se fazia — quem a fazia! — contra a guerra colonial e o regime fascista. Demagógico, recheado de lugares comuns, com erros de ortografia, foi um produto das circunstâncias que vivi. 

sábado, 11 de março de 2017

11 de Março de 1975

11 de Março de 1975
(Reposição)

No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e tinha sido incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. 
Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do combate real nas colónias. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. 
A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. 
As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que o furriel ranger que o perseguia o conseguisse deter, coxa a jorrar sangue às golfadas: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (o tiro estava regulado em altura, não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, e liberto do arame farpado corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. 
E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço. 
Correm boatos: há guerra em Lisboa!  A disciplina prevalece, obedecemos às ordens, formar, marchar, começar novas e extenuantes provas, sempre debaixo de berros, tiros, explosões. À noite, para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado, a custo me despertam para o meu turno de sentinela, nevoeiro de cortar à faca, que guardo eu ali, no pinhal, sem uma única bala no carregador?
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. 
Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as HK21, na esperança ingénua de que o matraquear das metralhadoras afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira de ataque iminente dos marines. 
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que logo reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram alferes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram punho erguido que então morrerão com as botas calçadas a combatê-la – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.